23 de maio de 2017

Mais um sobre gerascofobia e Laggies

Esse post foi escrito na noite do dia dezesseis de maio de dois mil e dezessete. Uma semana atrás. Mas eu não tinha certeza se publicava ou não. Enfim, publiquei.Resultado de imagem para laggies rotten tomatoes

Então há duas coisas nesse post que me assustam muito. Crescer e procurar bons filmes no catálogo da Netflix. Talvez, esses sejam medos comuns, ou talvez sejam coisas peculiares sobre mim.

Hoje eu faltei aula porque acordei com crise de garganta. Faltar aula pra mim, é muito mais do que deveria ser. Minha mãe me pergunta o dia todo como eu estou, meu pai me faz chás estranhos, minha irmã mais velha fica mais tempo comigo. Faltar aula é a minha saída quando eu estou me sentindo adulta demais. É só um dia em que eu finjo que posso fugir das minhas responsabilidades e ficar em casa sendo mimada e tratada como criança pela minha família. Eu leio o dia todo e assisto filmes. Eu não faço nada do que deveria fazer e isso me faz muito feliz. Hoje, como estava combinado entre eu e o cosmos, eu deveria ver filmes. Então eu enfrentei meu medo de passar duas horas floating no catálogo de filmes e abri o Netflix. Em dias que eu estou bancando a menina de 8 anos em vez da de 18, é regra que eu não posso assistir nenhum filme "cabeça". Nada de dramas, nem ficção científica, nem documentários, nem filmes sobre política e muito menos comédias inteligentes. De modo que fui direto para a sessão de comédias românticas bobas (nem todas são bobas, como vocês sabem).
E, como uma coisa do destino, lá estava um filme da Keira Knightley que eu ainda não tinha assistido. E aqui vai a maior surpresa! Era sobre uma mulher com medo de crescer, assim. como. eu.

Agora, eu vou tentar fazer uma resenha.

O filme se chama Laggies (Encalhados) e é de 2014. Tem a Keira, a Chloë Grace Moretz e o Sam Rockwell. Nas palavras do cara que faz sinopses pra a Netflix, "Megan tem 28 anos e muito medo de envelhecer. Ela conta ao namorado que vai a um seminário, de fato, está curtindo a vida com uma adolescente." E sim, essa é basicamente a coisa toda. Megan tem um namorado esquisito desde o Ensino Médio. Ele é fotografo e ela já tem mestrado e tudo, mas não é realmente nada. Eles estão dentro de um grupo de amigos (deveras cabuloso, inclusive) desde a adolescência. Os dois parecem estar presos ao passado, se fizermos uma análise mais profunda. Até que um dia, Megan é pedida em casamento por esse namorado estranho, surta e foge. A partir daí, eu já estava imaginando se eu não tinha sido assistida a minha vida inteira pela diretora, porque Megan parece muito mais comigo do que eu gostaria. Voltando, Megan conhece uma adolescente, elas ficam amigas (pra resumir MUITO) e ela acaba dizendo ao namorado que vai pra um seminário antes de se casarem, mas na verdade, vai passar uma semana na casa da nova amiga adolescente. 
A personagem da Chloë, Annika, também me lembrou muito eu mesma. Ela tem medo de relacionamentos e não consegue ter nenhum porque está sempre pensando no futuro, como se ela pudesse, sei lá, prever que não ia dar certo. Ou que talvez ela devesse esperar por outra coisa.
Eu li por ai que era patético que a Keira e a Chloë estivessem nessa comediazinha. "A moça que fez a Elizabeth em Orgulho e Preconceito atuar nesse filme, é simplesmente patético!" Como se Hollywood fosse dar o privilégio de escolha pra a Keira! Como se escolher só fazer filme de clássicos ingleses fosse torná-la hit! Mas de qualquer forma, eu não achei o filme patético coisa nenhuma. Tem comédia, é romântico, o que já cumpre com a promessa toda. E além disso, se você prestar muito atenção, ou estiver num dia sensível, vai perceber a profundidade da coisa. Eu não sei se a Megan supera ou não o negócio da gerascofobia. Também não sei se a Annika perde o medo de relacionamentos ou se ela chega em casa e não consegue dormir pensando em como namorar alguém é estranho. Não dá pra saber, porque é só um filme de quase duas horas. Mas dá pra a gente pensar um bocado. Tem uma cena em que a Megan diz "Você não pode deixar de lado o que quer por um futuro imaginário." E isso sintetiza absolutamente tudo sobre o filme. Era também o que eu precisava pra hoje.

Não, acho que isso não pode ser chamado de resenha.

Pra vocês que talvez esperassem uma resenha, bem, as atuações são boas(nada de muito especial é exigido dos atores, anyway), fotografia nem tanto, trilha sonora clichê. Mesmo assim, a diretora, Lynn Shelton, parece ser bem empática com a situação. E tem 64% no Rotten Tomatoes. Eu recomendo.

Enfim, acho que estou pronta pra voltar pra as minhas responsabilidades amanhã. E quem sabe, parar de imaginar tanto o futuro e, finalmente, entender que o medo de crescer só me faz perder o que eu não quero perder afinal, minha juventude.

18 de maio de 2017

Agenda dos próximos meses

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Dezoito de maio de dois mil e dezessete.
1. Ler livros que eu quero ler, só porque eu quero ler. Às vezes eu quero ler sobre São Francisco de Assis, mas "não posso, porque sou agnóstica". São Francisco foi um cara bacana demais. Corajoso demais. Largou tudo pra viver como queria e aplaudir o sol. Esse leria o que quisesse, não seria covarde como eu. E não é só crença ou descrença que tá me paralisando, mas descobri que estou sendo contaminada pelo vírus do pseudo-cult da literatura que eu tanto abominei minha vida inteira! Esses dias eu senti vontade de ler Tempest da Julie Cross, um livro que comprei no meu aniversário de 16 anos e que tenho aqui há muito tempo e nunca li. Mas daí, antes de tomá-lo para ler, pensei que ele era idiota demais e que eu não deveria estar lendo Y.A. agora que já tenho 18 anos. Ai eu peguei um livro da Jane Austen, que eu amo, mas não deveria ser obrigação e nem deveria estar lendo porque é cult mas porque eu quero ler. Foi ai que eu percebi que alguma coisa estava errada. Medo de a minha estante virar uma perfeita caricatura de um professor chato com um cigarro na mão.
Quando eu era mais nova, tinha Alexandre Dumas e Pedro Bandeira na minha bolsa! Um perfeito equilíbrio hahaha
2. Voltar a ver minhas tão amadas comédias românticas sem ter vergonha disso. Esses dias, uma professora minha brincou com uma das alunas que aparentemente é muito intelectual. "Você conhece as Kardashians ou só lê Nietzche?", ela falou. Ai eu lembrei que não via as Kardashians há anos(isso foi uma hipérbole, folks), e que essas coisas meio bobas do mundo pop me ajudam tanto quanto as coisas que as pessoas consideram cultas. Nesse post, eu falo sobre as músicas bregas que me inspiram mais do que os discursos do Malcom X ou as obras do Andy Warhol. Mas ai eu comecei a faculdade e parei de escutá-las, de ver filmes bobos, de assistir programas de fofocas... Saudades de maratonar todos os filmes românticos da Meg Ryan!
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3. Parar de procrastinar pra escrever só porque eu não sou talentosa como tal pessoa ou porque "aquela outra escreve tão bem que eu nunca conseguiria chegar aos pés". Eu não preciso chegar aos pés de ninguém, eu só preciso escrever. Ninguém precisa me ler mesmo, não é como se eu fosse o Stephen King, então pra que essa paranoia toda?
4. Cuidar mais de mim. Eu sempre falei que quando tivesse minha própria casa, eu não limparia ela, porque eu odeio limpar. Eu não a organizaria, porque eu sou bagunçada mesmo. E agora eu percebo que eu sempre tive minha casa e realmente não a organizei. O problema é que só eu vivo aqui e ninguém me visita nem nada, se essa casa desabar, só eu vou me embora junto. E eu sou nova demais pra ir.
5. Estudar apenas por estudar. Eu me interesso por tantas coisas, mas sempre acabo achando que vai ser inútil, que eu perco tempo lendo sobre, que eu poderia usar aquele espacinho no meu cérebro pra algo que eu fosse ser avaliada por. Mas ai eu reclamo de quem faz as coisas automaticamente quando eu acabo sendo essas pessoas. No início do ano, eu comecei a me interessar por Empirismo. Então eu li um monte e depois achei que era um conhecimento sem propósito, uma vez que eu não o usaria (pobre de mim, menina tola). Mas um dia desses que fui visitar minha escola de Ensino Médio, uma amiga de uma amiga perguntou à nossa antiga professora de sociologia pra quê aprender genética, se a gente não ia usar. Com toda serenidade que a professora não tem, ela respondeu que "É muita burrice achar que a gente só tem que saber de alguma coisa se for precisar usá-la praticamente". E com isso, eu voltei a ler Empirismo e também levei um ótimo, e necessário, tapa na cara.
6. Autorrealização. Porque isso nunca sai da minha agenda, mas um dia eu espero não precisar.

15 de maio de 2017

Espelho, espelho meu... #VNES


Acordar e encarar a vida nem sempre é tão simples. E lá estava ele, meu primeiro obstáculo, o espelho, como era triste me olhar todos os dias e não me aceitar como eu era. Depois era a hora de colocar a farda, aquela calça preta que nunca ficava boa em mim, me sentia um balão inflável, então olhava para meu rosto e via as olheiras funda, mostrando o quão pouco eu tinha dormido noite passada, me olhava procurando onde eu estava e porque tinha me perdido assim.

Ahh, como aqueles minutos na frente do espelho me destruía e continuava a me perguntar por que não ser como as meninas da minha escola. O tempo foi passando e eu não conseguia me olhar no espelho. Me achava gorda, feia, mas eu nunca conseguia enxergar o que eu realmente era. E foi assim que passei a parar de comer e quando sentia fome comia bem pouco e vomitava tudo logo após. Ninguém percebia o que estava acontecendo comigo, me isolei e cada vez me encontrava mais sozinha e sem enxergar quem eu era, me perdia a cada dia e parecia que meu mundo estava se fechando contra mim.

E foi aí que as pessoas e a minha família começaram a notar que eu passava o dia todo sem comer e o quanto eu estava fraca. Minha mente me punia sempre que comia e depois eu ia correndo para o banheiro vomitar tudo, até que desenvolvi anemia. Passei a me sentir sonolenta, sem forças e muitas vezes ficava tonta, aí veio o primeiro desmaio na escola...aquele dia foi horrível lembro das pessoas em minha volta ao acordar, com cara de assustadas e se perguntavam o que estava acontecendo comigo e eu só queria chorar, porque eu sabia o que estava acontecendo.

Mas o que eu ia fazer pra mudar? Eu não sabia e só estava afundando cada vez mais. O tempo parecia ter parado e eu nem sabia quem era eu mais, até que resolvi me aceitar porque ser eu e me sentir bem comigo mesmo foi umas das melhores coisas que aconteceram. A minha felicidade voltou e meu sorriso ao olhar no espelho era de amor próprio, era a melhor coisa que eu sentia me amar, me amar... O amor tão profundo e mais sincero por mim mesma.
Texto de Mariane Xavier

O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

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13 de maio de 2017

Depois de um dia esquisito, mais um pra se arrepender de ter postado


Eu odiava que você esperasse algo de mim. Achava que era injusto que você quisesse que eu fosse isso ou aquilo. Eu queria que você me aceitasse do jeito que eu era, que me compreendesse mais. Ou que se não conseguisse me compreender, deixasse por isso mesmo.
Eu odiava que você esperasse algo de mim. Mas eu esperava tanto de você.
Mesmo que eu seja agnóstica; que eu seja bagunçada; que durma tarde demais e acorde mais tarde ainda; que eu faça uma faculdade que a senhora não gosta; que eu queira escrever ficção e não prescrição de remédios; que eu leia demais e estrague minha vista; que eu ande com esses "comunistas vagabundos"; que eu seja viciada em miojo; que eu só use preto; que eu odeie sutiãs mas "tem que usar, menina!"; que eu deixe os gatos dormirem na minha cama; que eu lave o cabelo à noite; que eu só assista "essas coisas de gente gótico"; que eu desate a falar umas horas e em outras eu nem queira dar bom dia; mesmo com tudo isso, você espera algo de mim. Obrigada, porque eu não sei se teria essa perseverança com outra pessoa.

E valeu por pintar meu quarto de amarelo, numa tentativa um tanto ridícula de me fazer não esquecer de você. Eu não esqueceria, mas obrigada por tentar.

Eu não entendo por que a senhora tem um filho bem sucedido, uma filha religiosa e uma filha organizada, mas ainda assim, tenta por mim. Acho que nem a senhora entende.

8 de maio de 2017

Checked #VNES

Mais um post do projeto #VocêNãoEstáSozinho! Sorry folks, eu deveria ter postado algo entre um #VNES e o outro, mas sabe como é, agora que eu sou universitária... cof cof


Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:00. 
Saio do quarto e fecho a porta forçando um pouco a pobre. Depois da última chuva, parece que ela estufou de um jeito que quase não fecha. Me olho no espelho e aproveito para dar uma última checagem. 
Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:05. 
Vou até a cozinha e observo o ambiente. 
Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked. 
Sorrio satisfeita e desligo as luzes. Passo voando pelo corredor imaginando se o ônibus passaria mais cedo e eu ficaria plantada naquele Sol de 70º graus. 13:08.
Saio de casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. A chave não gira mais. Está trancada. Mexo e simulo uma invasão. A porta não abre de jeito nenhum. Sorrio e saio andando pelo meio da rua deserta. Mas será que eu não deixei o fogão ligado mesmo? Eu não tenho certeza se fiz isso quando terminei de esquentar minha lasanha de ontem. Dou meia volta para casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Abriu. Entro e empurro a porta atrás de mim sem trancá-la. Saio correndo pelo meio da casa e ao chegar na cozinha presencio o mesmo cenário de 5 minutos atrás plenamente deserto. 
Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked. 
Aff. Desliguei as luzes e enquanto passei pelo espelho prendi a respiração. Não preciso checar novamente. NÃO ESTOU ESQUECENDO NADA! 
Ergo a cabeça e saio de casa. Coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Trancou. Certeza? Giro a maçaneta sem a chave na fechadura e a porta não abre. 
Guardo a chave no bolso direito e puxo o celular do bolso. 13:14. MERDA! 
Seguro minha mochila e corro sem prestar atenção nos carros. Viro três esquinas correndo e ignorando olhares. Quando chego na Avenida, vejo o lindo ônibus azul passar do outro lado. Não. Pode. Ser. Passei as mãos no rosto e respirei fundo. 
Tudo bem. Pego o próximo. Sem problemas. 
Espero o sinal fechar e atravesso na frente de uma linda Range Rover preta. Meu sonho de consumo. Claro que sei que pra isso preciso ser rica. E pra ser rica preciso ter um bom emprego. E pra ter um bom emprego preciso ir bem na faculdade. E pra ir bem na faculdade preciso... preciso...! Eu preciso ir bem na faculdade! Caso não, não consigo um emprego, nem dinheiro, nem uma Range Rover. Sentei no banquinho da parada de ônibus já arrasada. Eu não conseguiria um emprego! 
Um outro ônibus vem em direção ao ponto. Repito o destino cinco vezes na minha cabeça. Não é o meu. 
Olho para o chão percebendo que estou sozinha naquele lado da Avenida. Qualquer pessoa poderia chegar aqui. Uma moça grávida. Um moço querendo voltar pra casa depois de um longo dia de trabalho. E também pode vir um moço com má intenções. Ele sentaria ao meu lado como se fosse o moço querendo voltar pra casa, mas ele não esperaria o ônibus. Ele anunciaria um assalto. Eu reagiria? Não! Não dá pra reagir a um assalto. Eu correria? Não, eu iria morrer se me jogasse nessa Avenida. Eu daria meu celular. Mas eu vou ficar sem? Eu não tenho como comprar outro. Não tenho emprego! 
Olho ao redor. Um moço passa por mim e eu prendo a respiração sentindo meu coração disparar. Ele continua andando e eu solto o ar que prendia. Obrigada, Deus. 
Mais um ônibus azul vem em minha direção. O meu destino estava estampado em letras enormes. Li mais três vezes para ter certeza de que era o meu mesmo. Levantei e observei o banco. Não deixei nada cair, deixei? Ele já estava perto quando corri para acenar. Parou. Entrei no ônibus e passei pela catraca. 
Sentei em um banco qualquer e relaxei. Sem roubos hoje. Onde está minha chave? Meu coração disparou de novo. Será que deixei cair no ponto de ônibus? Abri minha bolsa desesperada e vi o molho reluzente se mexer dentro dela. Soltei o ar que prendia, como sempre, aliviada. Olhei pela janela as plantações passarem rápido por mim.e tentei afastar imagens de um possível acidente de ônibus comigo dentro. Para! 
EU. 
ESTOU. 
SEGURA. 
Sigo repetindo as mesmas palavras mil vezes na minha cabeça. Vejo pela visão periférica alguém sentar ao meu lado. É uma colega da faculdade. Ela pergunta se eu fiz o trabalho. 
Meu coração pula do peito disparando, sim. Eu coloquei o trabalho na bolsa?
Texto de: Clarissa Assis
O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

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1 de maio de 2017

EU AINDA CHORO #VNES

O projeto #VocêNãoEstáSozinho foi criado pelas blogueiras do Próxima Primavera, Nuvens dos sonhos, Cafofo Azul e Se Esse Mundo Fosse Meu, no intuito de dar voz à pessoas que precisam de ajuda. Pra entender melhor essa ação, acesse:  vcnaoestassozinho.blogspot.com.br

              São 11h da manhã. O alarme do celular toca sem parar. Será que se eu fingir que o despertador não tocou eu poderei faltar a aula hoje? Inferno. Tem prova, eu não posso deixar de ir. Levanto, vou ao banheiro, tomo banho, escovo os dentes, coloco minha roupa, solto minhas tranças do coque em que estavam, calço meu tênis e me olho no espelho do banheiro. Ok, é isso que temos para hoje, talvez se eu passar um batom...pego um gloss e passo, me sinto bonita hoje. Pego um lenço e coloco no cabelo, agarro a minha mochila e corro para cozinha. Eu sempre saio depois dos meus pais e chego antes deles então eles não estão aqui mais. Faz um mês que estudo nesse colégio, é válido salientar que eu odeio esse lugar. Sempre amei estudar, sou a típica nerd em tempo integral, mas estar numa escola, nem sempre é tão divertido. No caminho eu só penso no quanto eu queria voltar para casa me enrolar na coberta e ficar por lá por tempo indeterminado lendo algum livro ou fazendo algo que não inclua lidar com outros adolescentes. Mas eu preciso ir, não posso perder a primeira prova. Pego uma banana no balcão e saio de casa.
              São 15h da tarde. Eu estou trancada numa cabine do banheiro escolar chorando fazem 15 minutos, eu queria sair, correr, contar para alguém, mas depois vai ser pior. Eu já falei com a professora uma vez e tudo que ela disse "faz parte, é fase, daqui um tempo todos vão querer ficar perto de você" será que ela não entende que isso não vai acontecer, e pior SE for eu não quero ter que esperar a boa vontade deles? Eu comecei a estudar aqui faz UM MÊS, apenas UM MÊS e eu sempre termino o dia chorando desde então. Tudo que eu quero é sentar na minha cadeira, ter a minha aula tranquila e ir para casa. Tudo que eu fiz foi chegar na sala e sentar na mesma cadeira de sempre, encostada na parede na terceira cadeira da fileira, nem muito na frente, nem muito atrás. Na terceira aula, perto do intervalo, eu ouvi risadas, olhares em minha direção, mas não virei o rosto para saber o que era, não era a primeira vez que riam de mim por aqui.
              O sinal tocou alertando o horário de lanche, eu esperei todos saírem, inclusive a professora, mas um grupinho de meninas e meninos do fundo ficaram lá me olhando, então peguei meu lanche na mochila e fui levantar para sair quando senti minha cabeça voltando com muita força para baixo. MAS QUE MERDA?! meu cabelo estava amarrado na cadeira. Mas com muitos nós, eram muitos fios das minhas tranças presas. O grupinho do fundo começou a rir alto, e bater as mãos umas nas outras, e se preparam para sair. O que eu iria fazer? Deixar eles irem e me deixar presa aqui? Perguntar porque fizeram isso? Esperar até o próximo professor entrar na sala? Uma das meninas veio para cadeira do lado pegar o lanche dela enquanto eu prendia as lágrimas que queria descer. "Natalia, você pode me ajudar a me soltar?" "Oi? Ah, claro" eu suspirei de alívio e vi que os outros que estavam na sala olhavam para ela com cara de interrogação. Foi então que ela riu e eu senti que não seria a ajuda que eu precisava. Ela tirou uma tesoura da mochila e cortou um grupo de tranças "NÃO, NÃO É PRA CORTAR!" "Acredite, estou te fazendo um favor, você não fica bem com ela, tentando ficar bonita, não está funcionando" a primeira lágrima desceu. "Começando pelo fato de você ter o cabelo muito duro, não sei se é pior com as tranças ou sem" a terceira e a segunda também desceram. "Eu não deveria dizer isso...mas talvez se tivesse a pele mais clara..." enquanto isso ela terminava de cortar as tranças na altura no meu pescoço. Então ela saiu da sala e eu corri para o banheiro onde estou a algum tempo.
              Levanto e vou para casa, chorando durante o caminho de cabeça baixa com o capuz por cima. Chego em casa, passo na cozinho pego uma esponja de aço e corro para o meu quarto, jogo a mochila no chão e entro no banheiro. Tiro a roupa e me olho no espelho, passo a mão nas tranças e o choro compulsivo toma conta, um aperto forte no meu coração me dilacera. O QUE EU FIZ AFINAL???? Entro no chuveiro, e quando a água cai sobre meu corpo eu passo a esponja nos braços, arde, queima, minhas lágrimas se misturam com a água encanada, esfrego a esponja nas pernas, no pescoço, na barriga, por que essa cor não sai de mim??? EU NÃO QUERO SER ASSIM. Então eu grito até engasgar com as lágrimas, sento no chão do box e deixo que a água lave o que restou de mim. A força que usei na esponja fez meus braços se arranharem e alguns rasgos agora vermelhos e saindo um pouco de sangue são enxaguados pela água que ainda cai sobre mim. Eu levanto do chuveiro após uns 20 minutos, desligo a água, me enrolo na toalha e deito na cama em meu quarto do jeito que estou. Jogo uma coberta por cima e choro enquanto espero meus pais chegarem para fingir que estou dormindo e não ter que explicar o que aconteceu com meu cabelo e com minha pele.
              Eu tenho 12 anos. Faz um mês que estudo nesse colégio, é válido salientar que eu odeio esse lugar. Meus pais dizem que é porque eu ainda não fiz amigos, logo me acostumo só preciso me esforçar para conhecer novas pessoas. Minha professora diz que é brincadeira, somos todos crianças. É minha culpa não querer não existir? não ser negra? é culpa minha não me amar? é culpa minha viver esse inferno? "...mas talvez se tivesse a pele mais clara...". Sete anos se passaram. Hoje, eu sou uma menina confiante, empoderada sim, com autoestima elevada, ninguém pode ou tem o direito de me colocar para baixo, eu luto para que outras crianças não ouçam o que eu ouvi, não vejam o que eu vi, não sofram o que eu sofri. Mas não foi fácil, eu ainda escuto coisas ruins, mas hoje eu tenho força o suficiente em mim para me impor. Quando eu tinha 12 anos eu não tinha. Quando eu tinha 12 anos eu não soube pedir ajuda, eu não soube procurar socorro, eu tive medo, até meus 12 anos e anos após aquilo eu chorei horas a fio após ouvir que ser preta era o meu problema. Eu ainda choro. Mas não porque ser preta é um problema. Choro porque conviver com seres humanos que fazem esse tipo de coisa e ensinam isso para os seus filhos é um problema. Mas eu sei que não estou sozinha, essa luta não é só minha.
Texto de: Stephanie Karoline
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