15 de julho de 2017

Minha bolsa amarela // 12 cartas em 12 meses

Esse post tá bem atrasado, mas eu o escrevi sem atraso nenhum. Acontece que eu não sentia que era hora de postá-lo ainda, esse texto estava muito mais comigo do que com vocês. Não sei se dá pra entender. Mas aí está, com 15 dias de atraso. Estou bem melhor e, possivelmente, achei minha bolsa amarela.
Acabei de chegar do ato pelas Diretas Já, e como sempre, estou me sentindo meio utópica e meio gerascofóbica. O que combina muito com a carta de junho.
  • Junho: Uma carta para a infância.

Eu tenho um livro velho na estante pra sempre que eu me sentir uma bagunça completa, ler.
Já fazia algum tempo que eu não me sentia assim, então eu nem lembrava mais dele.

E acho que eu não me sentia assim, porque eu não estava realmente pensando em como me sentia.

Até ano passado, eu existia em vários lugares e pra várias pessoas. Eu tinha muitas coisas a fazer e resolver. Mas ai, antes do ENEM, eu meio que cai na armadilha de pensar no que eu queria fazer pra a vida toda. Comecei a me autoanalisar demais, a tentar decifrar meus sentimentos.  Foi quando eu quase me senti uma bagunça, mas não deixei que o pensamento se instalasse, voltei a me atarefar e sair de casa todos os dias.

Esse ano, porém, eu estou na universidade e só. Eu tenho outras atividades, mas ainda assim, parece que a universidade é onde eu moro agora. E ai, eu me acomodo, e começo a pensar em mim mesma. E eu odeio fazer isso, mas quando acontece, é difícil parar. No entanto, infelizmente, isso vai acontecer vez ou outra e eu preciso aprender a lidar. 
Eu tenho 18 anos e parece que eu vivi um monte e ao mesmo tempo não vivi nada. Quando falo sobre mim mesma, parece que eu me conheço muito, mas sempre que alguém me chama pelo nome, eu ainda preciso me lembrar que Thainara sou eu.

E agora, Thainara é uma bagunça.

Em um curto espaço de tempo, minha vida deu um salto ridículo. 2017 mudou tudo e nada. E eu não estava preparada de jeito nenhum. Quer dizer, não que eu fosse estar um dia.

E eu ando pensando bastante em você, infância. É uma saudade que eu sempre vou ter, eu acho. Hoje, um amigo me enviou uma música do John Lennon que me lembrou a minha época de criança. Quando eu ainda era um monte de coisas sem ser realmente nada. Quando eu não estava preocupada em ser alguma coisa. Nesse tempo, eu ia sempre para a casa da minha tia, e a gente ficava lá contando histórias de terror e depois assistíamos algum DVD de clipes antigos. Elton John, Bryan Addams, Air Supply, Cindy Lauper... Eu amava tanto aquelas pessoas, aquela casa e aqueles DVDs que sempre pensei que nunca pararia de passar minhas tardes lá. E um dia, eu cresci. E minha infância foi embora levando um monte de coisa junto.

Às vezes eu me pego pensando que deveria ter feito mais. Que fui muito precoce em certos pontos, mas em outros, estendi minha infância por um tempo demasiadamente longo. Demasia pra mim, que sou geração z, que morro de medo de sair do lugar, mas fico aflita por achar que estou paralisada. Eu nunca vou te entender, infância, mas a saudades que eu tenho de você é, eu tenho certeza, eterna.

Então, essa semana, no ápice da minha confusão mental, eu fui até a estante e peguei meu exemplar velho e surrado de "A Bolsa Amarela" da Lygia Bojunga.

É incrível pra mim, quanto uma criança inventada em 1976 me representa tanto.Sempre que eu leio esse livro, eu me sinto a Raquel. Eu morro de vontade de ter uma bolsa amarela também, pra guardar minhas vontades. E no momento, eu sou um poço de vontades. E elas desatam a crescer que nem as da Raquel, só que eu não tenho onde guardá-las. E eu não gosto que elas fiquem por ai, fazendo amizade com as pessoas. Porque então elas criam pernas e de repente eu nem sei mais onde eu estou.

Decidi que minha bolsa amarela vai ser alguma atividade que me exija frequência e esforço, mas que não seja nada acadêmica. Não sei ainda qual vai ser, mas tem que ter um fecho bem forte, pra esconder as minhas vontades e a coisas que elas vão inventando.

Enquanto isso, eu tenho a Raquel, o Afonso (ou Rei), a Lorelai, a guarda-chuva, o fecho bebê...
E como a Raquel gosta, eu tenho uma história pra ler que começa e termina. Tenho várias pra ler e reler enquanto a minha própria história está enguiçada que nem a da guarda-chuva, namorada do Afonso.

Literatura é minha única certeza agora. E eu acho que vai ser sempre.

Thainara
P.S.:Eu sinto muito muito sua falta. Mas acho que vou ter que enfiar a saudade dentro da minha bolsa amarela também.

10 de julho de 2017

Diário de leitura 001

Eu preciso muito começar a contabilizar o que eu estou lendo.
Aqui vai um grande problema que eu enfrento desde que eu me apaixonei pelo Jules Verne e li todos os livros dele que consegui encontrar no fim do ano passado: Eu entrei numa ressaca literária horrorosa e não consigo mais ler um livro só.
Acho que o último livro que eu terminei com total atenção focada à ele foi o Menina Má. Desde esse acontecimento, eu comecei a ler um bocado de coisa muito diferente junta e eu nem sei mais o que eu tô lendo, o que eu abandonei, o que eu devo deixar pra depois...
Isso é um grande problema pra mim, porque eu sinto que estou perdendo o meu ano de leitura inteiro e eu gosto de me sentir produtiva. Vou tentar escrever esses "diários de leitura" aqui, pra ver se isso me instiga a ler um livro só (ou pelo menos dois).

O que estou lendo agora!

Caixa de Pássaros do Josh Malerman 
Depois que eu li Menina Má, eu quis muito ler um thriller psicológico contemporâneo, e Caixa de Pássaros fez um sucesso enorme ano passado, eu decidi ver se era realmente bom. Já faz um tempão que eu parei de ler literatura de horror, mas ultimamente estou tentando voltar. Infelizmente, o Josh Malerman tem uma escrita muito diferente dos meus autores preferidos do gênero: Gaston Leroux (suspiros), Edgar Allan Poe, Henry James, Bram Stocker, William March... Eu acho que preciso me adaptar mais aos contemporâneos. Até agora, a leitura não está sendo muito boa, mas não vou abandonar.
Vampire Academy da Richelle Mead
Esse eu decidi ler porque já faz um tempo enorme que não leio em inglês. Nada mais a dizer de concreto. A leitura é boa, gosto de vampiros...
Morte Súbita da J. K. Rowling
Esse livro é que nem o Getúlio Vargas, divide muito as opiniões! Foi por isso que eu quis ler, mas também porque nunca li nada da J.K., o que é estranho se você gosta de ler. Até agora, eu não sei realmente o que está acontecendo. Ela conta a história de diversas famílias numa cidadezinha inglesa e como elas estão reagindo a morte súbita de um dos representantes da cidade. Só. A escrita dela é muito boa, há que se admitir. Realmente não sei se vou gostar desse livro.
Razão e Sentimento da Jane Austen
Perfeito, como eu esperei que seria.
***
Como se pode perceber, os quatro livros são extremamente diferentes em época e gênero! Além desses, eu tava lendo o Obras Filosóficas do Bertrand Russel(que eu gostei muito, a propósito), mas eu finalmente terminei! Acho que o próximo a ser finalizado vai ser Vampire Academy, mas vamos ver.

Metas de leitura pra esse semestre!

Manifesto do Partido Comunista do K. Marx e F. Engels
20.000 léguas submarinas do Jules Verne
Nêmesis da Agatha Christie (talvez eu leia A maldição do espelho ou Os trabalhos de Hércules)
A casa das sete mulheres da Letícia Wierzchowski
Madame Bovary do Gustave Flaubert
A abadia de Northanger da Jane Austen (ou talvez eu leia As novelas inacabadas, Juvenília, Mansfield Park ou Persuasão, mas até agora eu estou mais animada para ler esse)

Todas as metas são de livros que eu já tenho e que eu comprei pensando que queria muito desesperadamente ler (principalmente o do Verne) e acabei não lendo. No fim do semestre, vamos ver se eu consigo diminuir o número de livros não-lidos na estante!
***

Não vou participar da #MLI2017 ~CHOREMOS~ mas eu vou tentar voltar ao ritmo. No fim do ano, eu venho dizer quais foram os meus sucessos e fracassos de 2017. Até lá!
*O 12 cartas em 12 meses tá atrasado, mas vai sair!*

29 de junho de 2017

Biologia


Thomas era uma confusão.
Por causa disso, por causa da urgência quase tangível de entender a si próprio, resolveu entender a todos.
Anatomia, genética, herança, DNA...
Talvez isso fizesse da natureza humana algo inteligível e, desse modo, o rapaz entenderia o redemoinho que ele mesmo era.
Que piada! A ciência se tornou apenas mais uma aliada da confusão.
E ainda deixou em Thomas mais uma marca de paixão incompreendida...
O ser ou não ser, caro Thomas, é algo que nem Shakespeare explica.

Eu achei esse texto num caderno bem antigo. Acabou me representando tanto nesse momento que decidi postar aqui. É assim que eu crio personagens, eles só vêm (com nome, aparência e tudo), e eu fico com uma vontade danada de botar eles no papel. No papel mesmo, gosto de trazê-los ao mundo escrevendo com lápis. Me sinto Deus, como falei no post anterior. Daí, se o meu personagem ficar meu amigo ou se eu me apaixonar por ele, não largo nunca.
Mas às vezes esqueço e deixo pra lá. Só que nesse caderno tem tantos textos sobre esse Thomas que eu até me assustei. Thomas não existe, mas parece que eu o conheço mais do que conheço a mim mesma. Ou talvez ele seja um jeito que eu encontrei de me entender. Acho que vou trazer ele mais vezes...

21 de junho de 2017

Sobre como, honestamente, nomeei esse blog

Eu sempre odiei o som do verbo "conformar". Eu não queria participar dessa melodia esquisita. E por muito tempo na minha vida, ser "conformista" era um xingamento.
Só que essa semana, mediante todos os acontecimentos que me pegaram de surpresa, eu decidi, inconformadamente, me conformar.
Em toda a minha existência, a coisa que eu mais amei foi controle. Eu sempre quis controlar tudo ao meu redor. Por isso, quando eu era criança, decidi que seria desenhista. Minha mãe me perguntou porque, falei que queria ser dona do mundo, queria desenhá-lo, ter pleno controle dele.
Uns anos mais tarde, descobri a escrita. Foi quando me senti quase completa. Eu escrevia toda hora e ilustrava meus escritos, criava meus universos duplamente. E sempre de lápis! Eu voltava muitas vezes na mesma obra e apagava, desenhava de novo, adicionava, adaptava, coloria. Eu era Deus.
Mas então eu cresci e me vi perdida em um mundo que não havia sido criado por mim. Um mundo anterior e independente à minha existência. Um mundo que eu não controlava mais.
Escrever parou de ser um ato de dominação e virou um ato de coragem. Parei de criar e comecei a despejar os lamentos do que já havia sido criado. Desenhar não fazia mais o menor sentido. E, ah, como eu queria que esse mundo fosse meu! Queria ter escolhas e não possibilidades. Queria liberdade e não apenas contexto.
Mas no fim, é isso mesmo. Eu preciso finalmente entender que não tenho controle de nada. Que a vida gira ao meu redor e o máximo que eu posso fazer é pensar positivo. 
E tudo bem, Thainara, tudo bem. Eu me cansava das minhas narrativas loucas uma hora ou outra. Porque eu tinha tudo planejado na cabeça, não havia surpresas, nem muita coisa que me desafiasse. E às vezes, em alguns momentos, você precisa ralar pra caramba, pra que quando as coisas esperadas cheguem, possa só sentar no sofá e dizer "Que ótimo. Eu consegui". Quando as coisas vêm sempre fácil demais ou de maneira planejada demais, a gente nunca para pra agradecer o que ganhou, só nos preparamos para a próxima vitória.

17 de junho de 2017

18 coisas que eu - finalmente! - aprendi com 18

Então eu tenho 18 anos. Faz, sei lá, dois meses ou mais que eu tenho 18 anos. E eu já escrevi um post sobre isso, finalizando o projeto 18 antes dos 18. Na verdade, o que eu estava mais interessada em fazer, era escrever sobre coisas que eu aprendi até aqui, com essa existência na terra. Agora, passados alguns meses que fiz aniversário, eu me sinto mais "preparada" pra falar sobre essas coisas que eu aprendi com esses anos. Eu com certeza vou reler isso aqui sempre. E querer mudar tudo depois.

1. Eu não preciso me encaixar. É doloroso e desnecessário tentar ser "normal" ou como a maioria das pessoas. Definições com as quais eu me identifico, nunca serão capazes de totalmente definir quem eu sou o tempo todo. Elas são só um jeito que acharam pra nomear uma ideia geral. Eu sou peculiar como os outros sete bilhões de seres humanos são, então às vezes eu não vou conseguir explicar as minhas peculiaridades e nem entender as peculiaridades dos outros. Eu sempre acreditei que tudo é contexto, afinal.

2. Não posso dizer quem é "bom" ou "ruim". Como eu reclamei pontualmente no Twitter, só porque você teve uma experiência ruim com uma pessoa, não significa que ela seja ruim ou que você deva "avisar" outras pessoas sobre ela! Meus valores, preferências ou afinidade são meus! Ninguém está aqui pra se encaixar nos meus padrões morais e ideológicos (nem estéticos)! É difícil de entender, mas enquanto eu me sinto na posição de julgar quem é bom e ruim, outras pessoas também estão me rotulando desse jeito, e com certeza eu não vou apreciar. Eu entendo que a alteridade é e sempre foi um problema, mas superestimar a si próprio ao ponto de achar que pode dizer quem vale e quem não, é ridículo. 

3. Ser "diferente" não é tudo que eu tenho. Por toda a minha infância e juventude, eu achava que as minhas singularidades em comparação com as normalidades das pessoas era o que me fazia "valer a pena". Então sempre que eu achava alguém que tinha um cabelo como o meu, ou que gostava das mesmas coisas, eu ao invés de amá-la, me sentia ameaçada por ela, pensava que ela era melhor do que eu, mais autêntica do que eu. Eu sou normal, sou como as outras pessoas, eu pareço com um bocado de gente e tá tudo bem. Na verdade, está ótimo.

4. Não preciso achar que nasci pra fazer tal coisa. Até porque não acredito nisso. Ando nem acreditando em talento, na verdade. Acho que as pessoas gostam de coisas e praticam e fazem coisas que parecem boas. Mas isso é relativo, como tudo na vida.

5. Não preciso ser amiga ou gostar de todo mundo. Não posso dizer se as pessoas são boas ou ruins, mas posso dizer se gosto ou não delas, ou se quero que elas estejam na minha vida. Às vezes não tenho nenhum motivo pra não gostar de alguém e eu me sinto mal por isso. Só que na verdade, isso é uma característica humana, eu posso simplesmente não me sentir atraída por esse alguém. Ou em certos casos, algumas pessoas não mal-intencionadas me são tóxicas e eu preciso entender que a minha qualidade de vida vem primeiro.

6. Não preciso beber, ou ser sexual pra ser legal. Eu não vou ficar com pessoas nas festas, nem ficar bêbada e isso não quer dizer que vou aproveitar menos ou que não sou divertida. Eu realmente não dou a mínima pra isso. Beber demais e ficar com pessoas casualmente não é quem eu sou. Às vezes eu me sinto estranha quando estou na companhia da maioria dos meus amigos, porque parece que eu estou sendo moralista, ou sei lá. Mas a verdade é que tentar me fazer ser como eles é que realmente parece moralista.

7. Odiar pessoas religiosas não é ok. Odiar pessoas não é ok. A religião me traumatizou muito. Eu não gosto de como essa instituição me afeta e à bilhões de pessoas, e eu tenho o direito ser totalmente crítica com isso. Mas não com as pessoas que seguem religião. Elas precisam da religião, seja por que motivo for. Eu mesma preciso de certezas, crenças ou algo pra me segurar. Pessoas religiosas não são menos inteligentes ou menos legais. São só diferentes de mim.

8. Me sentir inteligente, bonita ou qualquer outro bom adjetivo não é ser arrogante. E aqui vem algo muito revelador sobre mim. Eu tenho vergonha de dizer "obrigada" e de receber elogios, mas estou sempre elogiando as pessoas. Acho que na maior parte do tempo, não me considero alguém com baixa autoestima, mas sempre que as pessoas me elogiam, eu questiono a veracidade do comentário. Será que eu sou mesmo inteligente? Meu cabelo não é nem tão legal quanto o da (insira o nome)! Eu nunca questiono os meus próprios elogios, afinal.

9. Nem sempre me sentirei inteligente, bonita ou qualquer outro bom adjetivo. Tudo bem não saber sobre um assunto, Thainara! Tudo bem não saber sobre um assunto, Thainara! Tudo bem não saber...

10. Momentos ruins não fazem minha vida ruim. 


11. Sou perfeitamente incompleta. E não preciso de ninguém pra essa autorrealização. Tudo o que eu posso fazer é me compartilhar com outra pessoa, não esperar que ela me complete.

12. Me colocar em primeiro lugar é o mínimo! Porque se eu não colocar, ninguém vai colocar. E mesmo que alguém colocasse, isso seria horrível pra mim e pra ela. Eu só vivo uma vez, como diz a Barbra Streisand, então que eu faça isso aqui ser alguma coisa.

13. Não preciso ter certeza de todas as coisas. Mas, agora, preciso ter algumas certezas.

14. Não sou uma farsa. Um dos grandes problemas de quando alguém me elogia seja pelo o que for. Eu sempre penso que não mereço de jeito nenhum ou que talvez a pessoa me ache legal porque não me conhece de verdade. Eu acho que passo tempo demais tentando ser outra pessoa que não eu. O que é um total desperdício da pessoa que eu sou.

15. Às vezes, eu preciso muito desligar o raio problematizador. E ler um chick-lit, ver comédia romântica dos anos 90, escutar as playlists da Billboard Hot 100, ver Friends sem pensar demais, analisar quando vale ou não a pena discutir...

16. Posso não concordar com as pessoas. E elas ainda serão legais! Eu posso conversar normalmente mesmo sabendo que a pessoa discorda de mim! Não dá pra falar de contexto e achar que todo mundo é igual, então sejamos coerentes.

17. Vou ter necessidades porque sou um homo sapiens sapiens! E tudo bem pedir, Thainara. As pessoas te pedem tanto.

18. Ninguém realmente se importa, mas ao mesmo tempo, se importam. E ninguém é totalmente descomplexado com isso.

5 de junho de 2017

A maldição e a benção que é ter muito pra dizer

Em um dos posts aqui do SEMFM, eu recebi um comentário que me deixou muito feliz. Assim que eu li, minha primeira reação foi sorrir e tirar print (para dias que eu preciso enxergar minha existência nas concepções positivas que as pessoas fazem de mim). Eu devo ter lido umas quatro vezes. E a última frase do comentário foi a que me marcou mais. "Admiro muito quem tem tanto a dizer como você" (Obrigada, leitor, você me fez rir e pensar).

Então, eu tenho muito a dizer. Já escrevi dois ou três posts em que falo disso. Num deles eu digo " Ando achando que estou meio vazia. (...) Vazia de palavras não! Estou tão cheias delas que me escapam sem consentimento! (...) Se a vida continuar trazendo-me palavras, e os meus dedos não me falharem, continuo escrevendo. Senão, boto um ponto final nesse infinito." Em outro, esse mais recente (o meu "comeback" depois que parei de postar no meio de 2015), no qual falo sobre a razão de eu amar a blogosfera e precisar dela, eu falo "(...)Eu era um poço de palavras, um poço bem fundo... (...) Mas a minha vida mudou drástica e felizmente. (...) Foi quando meu poço secou pra dar entrada à um novo vocabulário, este que uso atualmente. Não sei se terei olhos pra lê-lo e muito menos se terei os mesmos olhos de antigamente. Não importa, façamos tudo de novo."

Lendo esses posts, um datado de vinte e nove de maio de dois mil e quinze e outro de dezoito de julho de dois mil e dezesseis, é possível notar o quanto eu amo estar "cheia de palavras" e o quanto às vezes isso pode ser odiável. No post mais antigo, eu me reclamo de ter tanto pra falar, mas me sentir rodando e rodando sem sair do lugar. Eu reclamo de questionar tanto, mas não me encontrar em nada. Reclamo do meu medo de "pontos finais". No post mais recente, eu explico o motivo de eu ser tão apegada a esse pequeno espaço na surface da internet. Isso aqui pode ser muito irrelevante em muitos aspectos, mas eu sinto como se eu precisasse falar e ver que alguém está me ouvindo. Mesmo que só uma pessoa. Eu preciso de comentários como o que citei acima pra reafirmar o sentido da minha "validade" nesse mundo. E eu, tenho sim, muito pra falar. Sendo da coisa, no meu critério, mais relevante, ou da coisa, no meu critério, mais irrelevante.

Aqui, como eu pus na minha pequena descrição no sidebar, é onde eu derramo tudo o que está dentro de mim e que eu não consigo botar pra fora. Aqui é uma bagunça. Como eu sou. Como pessoas que acham que têm muito pra dizer são.
Eu, pessoalmente, acho que todo mundo tem muito pra falar. Cada um é um universo. Como Locke (um filósofo inglês, pra quem não conhece) falou, somos uma tábula rasa, ou uma página em branco, que a experiência vai preenchendo. Pensando assim, cada pessoa tem muito pra dizer, baseado em sua construção de mundo pelas suas experiências, mas não todas têm a necessidade de dizer. Isso tem a ver com muitas coisas. Por exemplo, não temos mais aquele amparo interior que nos fazia procurar o "porto seguro" em nós mesmos, na nossa própria essência. Somos muito dependentes do olhar do outro, e isso nos faz querer falar pela necessidade de buscar alguém que nos compreenda, alguém que concorde com a gente.

Não é todo mundo que sai por ai falando de suas divagações. E por muito tempo, eu achei que esta era uma posição egoísta, afinal, com o pensamento do outro, podemos aprender muito. Hoje, eu não sei se penso assim. Há muitas forças que agem. Minha irmã mais velha, por exemplo, não fala muito, porque acha que não têm nada de importante ou novo pra falar. Eu também não acho que eu tenha nada de novo pra falar, mas desconsidero esse pessimismo de achar que o que vem do outro ou de nós mesmos não é importante. Eu sempre me surpreendo ao receber comentários positivos aqui. E normalmente, eles vêm nos posts que eu mais fico insegura em publicar.

Novamente, não sei se esse post fez sentido. Mais um problema em ter muito pra dizer é que é necessário saber como organizar essas ideias. Eu nunca consigo acompanhar minimamente bem o que eu penso enquanto escrevo, mas vir aqui e tentar, me faz sentir menos prisioneira de mim mesma.


*A imagem que usei pra ilustrar o post, é de um filme chamado "Becoming Jane" que seria quase uma biografia amorosa da Jane Austen. Recomendo fortemente!*

31 de maio de 2017

Uma carta de agradecimento esquisita e envergonhada // 12 cartas em 12 meses

Olá, seres humanos! Como vai a vida de vocês? Eu não sei direito como vai a minha, na verdade. Mas estou bem ocupada. Amanhã terei uma prova meio preocupante e o resto da semana estarei atolada em coisas pra fazer e eventos pra comparecer(achei isso tão chique hahaha mas na verdade, preferia estar belíssima em casa e tendo tempo pra ver Netflix). Não quis de jeito nenhum atrasar o post do projeto, mas infelizmente eu vou parar de postar na mesma frequência que eu posto nas férias, por exemplo. Vai ter um post semanal, com certeza, e os outros a gente se esforça pra ter ~oremos~ Vocês sabem que não sou de colocar qualquer coisa aqui, eu tenho que querer e ter algo pra falar. Mas enfim, estou feliz de não atrasar o projeto, pelo menos isso!
  • Maio: Uma carta para nunca ser enviada.

Olá irmã,
Você provavelmente nunca vai ler essa carta. Ela vai se perder no meio de diversos posts e eu nunca vou mostrá-la a você, porque sou a pessoa mais covarde do mundo pra falar em amor. Você também é. Mas eu entendo, e te admiro muito por não ter vergonha disso, apesar de que não sei se isso lhe é tóxico ou não. Mas não é sobre amor (não especificamente) que quero falar e nem sobre as diversas coisas que admiro em você. Essa é uma carta de gratidão. Num mundo ideal eu lhe falaria tudo isso, mas como eu me conheço bem, eu sei que essa informação não vai chegar à você por mim, mas espero que você saiba.
Quando eu tinha sete, oito anos, você começou a trazer livros pra mim da biblioteca da sua escola. Me lembro de todos eles, inclusive dos que você trazia pra si mesma, maioria de mitologia grega ou do seu tão amado Machado de Assis. Um desses dias, foi muito marcante pra mim. Você estudava à noite e me disse antes de sair que me faria uma surpresa. Eu passei as quatro horas de sua ausência impaciente, andando de um lado pra outro na casa, sem tirar os olhos da porta. Quando você chegou, trazia três livros: A Normalista, o seu livro, A Casa da Madrinha, o livro da minha outra irmã, e finalmente minha surpresa, O Máscara de Ferro de Alexandre Dumas! Eu fiquei tão animada que quis começar a ler o livro no mesmo momento! Mainha tirou o livro das minhas mãos, guardou-o na estante e disse que eu só poderia ler pela manhã. E você sabe o quanto foi difícil pra mim dormir naquela noite! Levantei tantas vezes só pra olhar o livro que mainha quase desiste de me fazer dormir! Mas enfim, a manhã chegou, e eu agradeço muito a você por ter me apresentado às estórias que mudaram a minha vida. Sem você, eu não sei se seria leitora hoje. E se eu não fosse leitora, eu não sei quem eu seria.
Foi você quem comprou o nosso primeiro DVD de O Fantasma da Ópera e quem achou o primeiro exemplar do livro. Se você não amasse o menino Assis, eu possivelmente não teria lido (e amado) Dom Casmurro tão cedo. Você quem me ensinou a amar bibliotecas e depois me implorou pra te levar na Bienal comigo quando eu virei mediadora da biblioteca da escola (e eu nunca negaria), sem seu amor pela escrita, talvez eu não escrevesse, foi você quem me deu essa parte que me transformou e transforma até hoje. E eu não sei se um dia eu posso te dar tanto. 
Você ainda me leva mais pra dentro desse mundo, e agora que é professora de Literatura, me enche de orgulho por estar fazendo com diversas crianças, o que você fez comigo e com Thâmara*.
No próximo aniversário, você vai me perguntar o que eu vou querer, e eu vou pensar que você já me deu o melhor presente, mas não vou te dizer isso, infelizmente.
Você vive se achando pequena, mas quando eu era criança, você me parecia gigante. Hoje, adulta, eu percebo que você não parece, você é. Um dia, você vai perceber isso também.
Obrigada infinitamente, 
Thainara (sua irmã mais irritante hahaha)

*Thâmara é minha irmã gêmea

23 de maio de 2017

Mais um sobre gerascofobia e Laggies

Esse post foi escrito na noite do dia dezesseis de maio de dois mil e dezessete. Uma semana atrás. Mas eu não tinha certeza se publicava ou não. Enfim, publiquei.Resultado de imagem para laggies rotten tomatoes

Então há duas coisas nesse post que me assustam muito. Crescer e procurar bons filmes no catálogo da Netflix. Talvez, esses sejam medos comuns, ou talvez sejam coisas peculiares sobre mim.

Hoje eu faltei aula porque acordei com crise de garganta. Faltar aula pra mim, é muito mais do que deveria ser. Minha mãe me pergunta o dia todo como eu estou, meu pai me faz chás estranhos, minha irmã mais velha fica mais tempo comigo. Faltar aula é a minha saída quando eu estou me sentindo adulta demais. É só um dia em que eu finjo que posso fugir das minhas responsabilidades e ficar em casa sendo mimada e tratada como criança pela minha família. Eu leio o dia todo e assisto filmes. Eu não faço nada do que deveria fazer e isso me faz muito feliz. Hoje, como estava combinado entre eu e o cosmos, eu deveria ver filmes. Então eu enfrentei meu medo de passar duas horas floating no catálogo de filmes e abri o Netflix. Em dias que eu estou bancando a menina de 8 anos em vez da de 18, é regra que eu não posso assistir nenhum filme "cabeça". Nada de dramas, nem ficção científica, nem documentários, nem filmes sobre política e muito menos comédias inteligentes. De modo que fui direto para a sessão de comédias românticas bobas (nem todas são bobas, como vocês sabem).
E, como uma coisa do destino, lá estava um filme da Keira Knightley que eu ainda não tinha assistido. E aqui vai a maior surpresa! Era sobre uma mulher com medo de crescer, assim. como. eu.

Agora, eu vou tentar fazer uma resenha.

O filme se chama Laggies (Encalhados) e é de 2014. Tem a Keira, a Chloë Grace Moretz e o Sam Rockwell. Nas palavras do cara que faz sinopses pra a Netflix, "Megan tem 28 anos e muito medo de envelhecer. Ela conta ao namorado que vai a um seminário, de fato, está curtindo a vida com uma adolescente." E sim, essa é basicamente a coisa toda. Megan tem um namorado esquisito desde o Ensino Médio. Ele é fotografo e ela já tem mestrado e tudo, mas não é realmente nada. Eles estão dentro de um grupo de amigos (deveras cabuloso, inclusive) desde a adolescência. Os dois parecem estar presos ao passado, se fizermos uma análise mais profunda. Até que um dia, Megan é pedida em casamento por esse namorado estranho, surta e foge. A partir daí, eu já estava imaginando se eu não tinha sido assistida a minha vida inteira pela diretora, porque Megan parece muito mais comigo do que eu gostaria. Voltando, Megan conhece uma adolescente, elas ficam amigas (pra resumir MUITO) e ela acaba dizendo ao namorado que vai pra um seminário antes de se casarem, mas na verdade, vai passar uma semana na casa da nova amiga adolescente. 
A personagem da Chloë, Annika, também me lembrou muito eu mesma. Ela tem medo de relacionamentos e não consegue ter nenhum porque está sempre pensando no futuro, como se ela pudesse, sei lá, prever que não ia dar certo. Ou que talvez ela devesse esperar por outra coisa.
Eu li por ai que era patético que a Keira e a Chloë estivessem nessa comediazinha. "A moça que fez a Elizabeth em Orgulho e Preconceito atuar nesse filme, é simplesmente patético!" Como se Hollywood fosse dar o privilégio de escolha pra a Keira! Como se escolher só fazer filme de clássicos ingleses fosse torná-la hit! Mas de qualquer forma, eu não achei o filme patético coisa nenhuma. Tem comédia, é romântico, o que já cumpre com a promessa toda. E além disso, se você prestar muito atenção, ou estiver num dia sensível, vai perceber a profundidade da coisa. Eu não sei se a Megan supera ou não o negócio da gerascofobia. Também não sei se a Annika perde o medo de relacionamentos ou se ela chega em casa e não consegue dormir pensando em como namorar alguém é estranho. Não dá pra saber, porque é só um filme de quase duas horas. Mas dá pra a gente pensar um bocado. Tem uma cena em que a Megan diz "Você não pode deixar de lado o que quer por um futuro imaginário." E isso sintetiza absolutamente tudo sobre o filme. Era também o que eu precisava pra hoje.

Não, acho que isso não pode ser chamado de resenha.

Pra vocês que talvez esperassem uma resenha, bem, as atuações são boas(nada de muito especial é exigido dos atores, anyway), fotografia nem tanto, trilha sonora clichê. Mesmo assim, a diretora, Lynn Shelton, parece ser bem empática com a situação. E tem 64% no Rotten Tomatoes. Eu recomendo.

Enfim, acho que estou pronta pra voltar pra as minhas responsabilidades amanhã. E quem sabe, parar de imaginar tanto o futuro e, finalmente, entender que o medo de crescer só me faz perder o que eu não quero perder afinal, minha juventude.

18 de maio de 2017

Agenda dos próximos meses

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Dezoito de maio de dois mil e dezessete.
1. Ler livros que eu quero ler, só porque eu quero ler. Às vezes eu quero ler sobre São Francisco de Assis, mas "não posso, porque sou agnóstica". São Francisco foi um cara bacana demais. Corajoso demais. Largou tudo pra viver como queria e aplaudir o sol. Esse leria o que quisesse, não seria covarde como eu. E não é só crença ou descrença que tá me paralisando, mas descobri que estou sendo contaminada pelo vírus do pseudo-cult da literatura que eu tanto abominei minha vida inteira! Esses dias eu senti vontade de ler Tempest da Julie Cross, um livro que comprei no meu aniversário de 16 anos e que tenho aqui há muito tempo e nunca li. Mas daí, antes de tomá-lo para ler, pensei que ele era idiota demais e que eu não deveria estar lendo Y.A. agora que já tenho 18 anos. Ai eu peguei um livro da Jane Austen, que eu amo, mas não deveria ser obrigação e nem deveria estar lendo porque é cult mas porque eu quero ler. Foi ai que eu percebi que alguma coisa estava errada. Medo de a minha estante virar uma perfeita caricatura de um professor chato com um cigarro na mão.
Quando eu era mais nova, tinha Alexandre Dumas e Pedro Bandeira na minha bolsa! Um perfeito equilíbrio hahaha
2. Voltar a ver minhas tão amadas comédias românticas sem ter vergonha disso. Esses dias, uma professora minha brincou com uma das alunas que aparentemente é muito intelectual. "Você conhece as Kardashians ou só lê Nietzche?", ela falou. Ai eu lembrei que não via as Kardashians há anos(isso foi uma hipérbole, folks), e que essas coisas meio bobas do mundo pop me ajudam tanto quanto as coisas que as pessoas consideram cultas. Nesse post, eu falo sobre as músicas bregas que me inspiram mais do que os discursos do Malcom X ou as obras do Andy Warhol. Mas ai eu comecei a faculdade e parei de escutá-las, de ver filmes bobos, de assistir programas de fofocas... Saudades de maratonar todos os filmes românticos da Meg Ryan!
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3. Parar de procrastinar pra escrever só porque eu não sou talentosa como tal pessoa ou porque "aquela outra escreve tão bem que eu nunca conseguiria chegar aos pés". Eu não preciso chegar aos pés de ninguém, eu só preciso escrever. Ninguém precisa me ler mesmo, não é como se eu fosse o Stephen King, então pra que essa paranoia toda?
4. Cuidar mais de mim. Eu sempre falei que quando tivesse minha própria casa, eu não limparia ela, porque eu odeio limpar. Eu não a organizaria, porque eu sou bagunçada mesmo. E agora eu percebo que eu sempre tive minha casa e realmente não a organizei. O problema é que só eu vivo aqui e ninguém me visita nem nada, se essa casa desabar, só eu vou me embora junto. E eu sou nova demais pra ir.
5. Estudar apenas por estudar. Eu me interesso por tantas coisas, mas sempre acabo achando que vai ser inútil, que eu perco tempo lendo sobre, que eu poderia usar aquele espacinho no meu cérebro pra algo que eu fosse ser avaliada por. Mas ai eu reclamo de quem faz as coisas automaticamente quando eu acabo sendo essas pessoas. No início do ano, eu comecei a me interessar por Empirismo. Então eu li um monte e depois achei que era um conhecimento sem propósito, uma vez que eu não o usaria (pobre de mim, menina tola). Mas um dia desses que fui visitar minha escola de Ensino Médio, uma amiga de uma amiga perguntou à nossa antiga professora de sociologia pra quê aprender genética, se a gente não ia usar. Com toda serenidade que a professora não tem, ela respondeu que "É muita burrice achar que a gente só tem que saber de alguma coisa se for precisar usá-la praticamente". E com isso, eu voltei a ler Empirismo e também levei um ótimo, e necessário, tapa na cara.
6. Autorrealização. Porque isso nunca sai da minha agenda, mas um dia eu espero não precisar.

15 de maio de 2017

Espelho, espelho meu... #VNES


Acordar e encarar a vida nem sempre é tão simples. E lá estava ele, meu primeiro obstáculo, o espelho, como era triste me olhar todos os dias e não me aceitar como eu era. Depois era a hora de colocar a farda, aquela calça preta que nunca ficava boa em mim, me sentia um balão inflável, então olhava para meu rosto e via as olheiras funda, mostrando o quão pouco eu tinha dormido noite passada, me olhava procurando onde eu estava e porque tinha me perdido assim.

Ahh, como aqueles minutos na frente do espelho me destruía e continuava a me perguntar por que não ser como as meninas da minha escola. O tempo foi passando e eu não conseguia me olhar no espelho. Me achava gorda, feia, mas eu nunca conseguia enxergar o que eu realmente era. E foi assim que passei a parar de comer e quando sentia fome comia bem pouco e vomitava tudo logo após. Ninguém percebia o que estava acontecendo comigo, me isolei e cada vez me encontrava mais sozinha e sem enxergar quem eu era, me perdia a cada dia e parecia que meu mundo estava se fechando contra mim.

E foi aí que as pessoas e a minha família começaram a notar que eu passava o dia todo sem comer e o quanto eu estava fraca. Minha mente me punia sempre que comia e depois eu ia correndo para o banheiro vomitar tudo, até que desenvolvi anemia. Passei a me sentir sonolenta, sem forças e muitas vezes ficava tonta, aí veio o primeiro desmaio na escola...aquele dia foi horrível lembro das pessoas em minha volta ao acordar, com cara de assustadas e se perguntavam o que estava acontecendo comigo e eu só queria chorar, porque eu sabia o que estava acontecendo.

Mas o que eu ia fazer pra mudar? Eu não sabia e só estava afundando cada vez mais. O tempo parecia ter parado e eu nem sabia quem era eu mais, até que resolvi me aceitar porque ser eu e me sentir bem comigo mesmo foi umas das melhores coisas que aconteceram. A minha felicidade voltou e meu sorriso ao olhar no espelho era de amor próprio, era a melhor coisa que eu sentia me amar, me amar... O amor tão profundo e mais sincero por mim mesma.
Texto de Mariane Xavier

O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

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13 de maio de 2017

Depois de um dia esquisito, mais um pra se arrepender de ter postado


Eu odiava que você esperasse algo de mim. Achava que era injusto que você quisesse que eu fosse isso ou aquilo. Eu queria que você me aceitasse do jeito que eu era, que me compreendesse mais. Ou que se não conseguisse me compreender, deixasse por isso mesmo.
Eu odiava que você esperasse algo de mim. Mas eu esperava tanto de você.
Mesmo que eu seja agnóstica; que eu seja bagunçada; que durma tarde demais e acorde mais tarde ainda; que eu faça uma faculdade que a senhora não gosta; que eu queira escrever ficção e não prescrição de remédios; que eu leia demais e estrague minha vista; que eu ande com esses "comunistas vagabundos"; que eu seja viciada em miojo; que eu só use preto; que eu odeie sutiãs mas "tem que usar, menina!"; que eu deixe os gatos dormirem na minha cama; que eu lave o cabelo à noite; que eu só assista "essas coisas de gente gótico"; que eu desate a falar umas horas e em outras eu nem queira dar bom dia; mesmo com tudo isso, você espera algo de mim. Obrigada, porque eu não sei se teria essa perseverança com outra pessoa.

E valeu por pintar meu quarto de amarelo, numa tentativa um tanto ridícula de me fazer não esquecer de você. Eu não esqueceria, mas obrigada por tentar.

Eu não entendo por que a senhora tem um filho bem sucedido, uma filha religiosa e uma filha organizada, mas ainda assim, tenta por mim. Acho que nem a senhora entende.

8 de maio de 2017

Checked #VNES

Mais um post do projeto #VocêNãoEstáSozinho! Sorry folks, eu deveria ter postado algo entre um #VNES e o outro, mas sabe como é, agora que eu sou universitária... cof cof


Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:00. 
Saio do quarto e fecho a porta forçando um pouco a pobre. Depois da última chuva, parece que ela estufou de um jeito que quase não fecha. Me olho no espelho e aproveito para dar uma última checagem. 
Mochila. Sapatos. Chaves. Carteira. Garrafinha de água. Checked. 13:05. 
Vou até a cozinha e observo o ambiente. 
Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked. 
Sorrio satisfeita e desligo as luzes. Passo voando pelo corredor imaginando se o ônibus passaria mais cedo e eu ficaria plantada naquele Sol de 70º graus. 13:08.
Saio de casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. A chave não gira mais. Está trancada. Mexo e simulo uma invasão. A porta não abre de jeito nenhum. Sorrio e saio andando pelo meio da rua deserta. Mas será que eu não deixei o fogão ligado mesmo? Eu não tenho certeza se fiz isso quando terminei de esquentar minha lasanha de ontem. Dou meia volta para casa e coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Abriu. Entro e empurro a porta atrás de mim sem trancá-la. Saio correndo pelo meio da casa e ao chegar na cozinha presencio o mesmo cenário de 5 minutos atrás plenamente deserto. 
Torneira fechada. Geladeira fechada. Fogão desligado. Porta do quintal devidamente trancada. Checked. 
Aff. Desliguei as luzes e enquanto passei pelo espelho prendi a respiração. Não preciso checar novamente. NÃO ESTOU ESQUECENDO NADA! 
Ergo a cabeça e saio de casa. Coloco a chave na fechadura. Giro. Giro. Giro. Trancou. Certeza? Giro a maçaneta sem a chave na fechadura e a porta não abre. 
Guardo a chave no bolso direito e puxo o celular do bolso. 13:14. MERDA! 
Seguro minha mochila e corro sem prestar atenção nos carros. Viro três esquinas correndo e ignorando olhares. Quando chego na Avenida, vejo o lindo ônibus azul passar do outro lado. Não. Pode. Ser. Passei as mãos no rosto e respirei fundo. 
Tudo bem. Pego o próximo. Sem problemas. 
Espero o sinal fechar e atravesso na frente de uma linda Range Rover preta. Meu sonho de consumo. Claro que sei que pra isso preciso ser rica. E pra ser rica preciso ter um bom emprego. E pra ter um bom emprego preciso ir bem na faculdade. E pra ir bem na faculdade preciso... preciso...! Eu preciso ir bem na faculdade! Caso não, não consigo um emprego, nem dinheiro, nem uma Range Rover. Sentei no banquinho da parada de ônibus já arrasada. Eu não conseguiria um emprego! 
Um outro ônibus vem em direção ao ponto. Repito o destino cinco vezes na minha cabeça. Não é o meu. 
Olho para o chão percebendo que estou sozinha naquele lado da Avenida. Qualquer pessoa poderia chegar aqui. Uma moça grávida. Um moço querendo voltar pra casa depois de um longo dia de trabalho. E também pode vir um moço com má intenções. Ele sentaria ao meu lado como se fosse o moço querendo voltar pra casa, mas ele não esperaria o ônibus. Ele anunciaria um assalto. Eu reagiria? Não! Não dá pra reagir a um assalto. Eu correria? Não, eu iria morrer se me jogasse nessa Avenida. Eu daria meu celular. Mas eu vou ficar sem? Eu não tenho como comprar outro. Não tenho emprego! 
Olho ao redor. Um moço passa por mim e eu prendo a respiração sentindo meu coração disparar. Ele continua andando e eu solto o ar que prendia. Obrigada, Deus. 
Mais um ônibus azul vem em minha direção. O meu destino estava estampado em letras enormes. Li mais três vezes para ter certeza de que era o meu mesmo. Levantei e observei o banco. Não deixei nada cair, deixei? Ele já estava perto quando corri para acenar. Parou. Entrei no ônibus e passei pela catraca. 
Sentei em um banco qualquer e relaxei. Sem roubos hoje. Onde está minha chave? Meu coração disparou de novo. Será que deixei cair no ponto de ônibus? Abri minha bolsa desesperada e vi o molho reluzente se mexer dentro dela. Soltei o ar que prendia, como sempre, aliviada. Olhei pela janela as plantações passarem rápido por mim.e tentei afastar imagens de um possível acidente de ônibus comigo dentro. Para! 
EU. 
ESTOU. 
SEGURA. 
Sigo repetindo as mesmas palavras mil vezes na minha cabeça. Vejo pela visão periférica alguém sentar ao meu lado. É uma colega da faculdade. Ela pergunta se eu fiz o trabalho. 
Meu coração pula do peito disparando, sim. Eu coloquei o trabalho na bolsa?
Texto de: Clarissa Assis
O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

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1 de maio de 2017

EU AINDA CHORO #VNES

O projeto #VocêNãoEstáSozinho foi criado pelas blogueiras do Próxima Primavera, Nuvens dos sonhos, Cafofo Azul e Se Esse Mundo Fosse Meu, no intuito de dar voz à pessoas que precisam de ajuda. Pra entender melhor essa ação, acesse:  vcnaoestassozinho.blogspot.com.br

              São 11h da manhã. O alarme do celular toca sem parar. Será que se eu fingir que o despertador não tocou eu poderei faltar a aula hoje? Inferno. Tem prova, eu não posso deixar de ir. Levanto, vou ao banheiro, tomo banho, escovo os dentes, coloco minha roupa, solto minhas tranças do coque em que estavam, calço meu tênis e me olho no espelho do banheiro. Ok, é isso que temos para hoje, talvez se eu passar um batom...pego um gloss e passo, me sinto bonita hoje. Pego um lenço e coloco no cabelo, agarro a minha mochila e corro para cozinha. Eu sempre saio depois dos meus pais e chego antes deles então eles não estão aqui mais. Faz um mês que estudo nesse colégio, é válido salientar que eu odeio esse lugar. Sempre amei estudar, sou a típica nerd em tempo integral, mas estar numa escola, nem sempre é tão divertido. No caminho eu só penso no quanto eu queria voltar para casa me enrolar na coberta e ficar por lá por tempo indeterminado lendo algum livro ou fazendo algo que não inclua lidar com outros adolescentes. Mas eu preciso ir, não posso perder a primeira prova. Pego uma banana no balcão e saio de casa.
              São 15h da tarde. Eu estou trancada numa cabine do banheiro escolar chorando fazem 15 minutos, eu queria sair, correr, contar para alguém, mas depois vai ser pior. Eu já falei com a professora uma vez e tudo que ela disse "faz parte, é fase, daqui um tempo todos vão querer ficar perto de você" será que ela não entende que isso não vai acontecer, e pior SE for eu não quero ter que esperar a boa vontade deles? Eu comecei a estudar aqui faz UM MÊS, apenas UM MÊS e eu sempre termino o dia chorando desde então. Tudo que eu quero é sentar na minha cadeira, ter a minha aula tranquila e ir para casa. Tudo que eu fiz foi chegar na sala e sentar na mesma cadeira de sempre, encostada na parede na terceira cadeira da fileira, nem muito na frente, nem muito atrás. Na terceira aula, perto do intervalo, eu ouvi risadas, olhares em minha direção, mas não virei o rosto para saber o que era, não era a primeira vez que riam de mim por aqui.
              O sinal tocou alertando o horário de lanche, eu esperei todos saírem, inclusive a professora, mas um grupinho de meninas e meninos do fundo ficaram lá me olhando, então peguei meu lanche na mochila e fui levantar para sair quando senti minha cabeça voltando com muita força para baixo. MAS QUE MERDA?! meu cabelo estava amarrado na cadeira. Mas com muitos nós, eram muitos fios das minhas tranças presas. O grupinho do fundo começou a rir alto, e bater as mãos umas nas outras, e se preparam para sair. O que eu iria fazer? Deixar eles irem e me deixar presa aqui? Perguntar porque fizeram isso? Esperar até o próximo professor entrar na sala? Uma das meninas veio para cadeira do lado pegar o lanche dela enquanto eu prendia as lágrimas que queria descer. "Natalia, você pode me ajudar a me soltar?" "Oi? Ah, claro" eu suspirei de alívio e vi que os outros que estavam na sala olhavam para ela com cara de interrogação. Foi então que ela riu e eu senti que não seria a ajuda que eu precisava. Ela tirou uma tesoura da mochila e cortou um grupo de tranças "NÃO, NÃO É PRA CORTAR!" "Acredite, estou te fazendo um favor, você não fica bem com ela, tentando ficar bonita, não está funcionando" a primeira lágrima desceu. "Começando pelo fato de você ter o cabelo muito duro, não sei se é pior com as tranças ou sem" a terceira e a segunda também desceram. "Eu não deveria dizer isso...mas talvez se tivesse a pele mais clara..." enquanto isso ela terminava de cortar as tranças na altura no meu pescoço. Então ela saiu da sala e eu corri para o banheiro onde estou a algum tempo.
              Levanto e vou para casa, chorando durante o caminho de cabeça baixa com o capuz por cima. Chego em casa, passo na cozinho pego uma esponja de aço e corro para o meu quarto, jogo a mochila no chão e entro no banheiro. Tiro a roupa e me olho no espelho, passo a mão nas tranças e o choro compulsivo toma conta, um aperto forte no meu coração me dilacera. O QUE EU FIZ AFINAL???? Entro no chuveiro, e quando a água cai sobre meu corpo eu passo a esponja nos braços, arde, queima, minhas lágrimas se misturam com a água encanada, esfrego a esponja nas pernas, no pescoço, na barriga, por que essa cor não sai de mim??? EU NÃO QUERO SER ASSIM. Então eu grito até engasgar com as lágrimas, sento no chão do box e deixo que a água lave o que restou de mim. A força que usei na esponja fez meus braços se arranharem e alguns rasgos agora vermelhos e saindo um pouco de sangue são enxaguados pela água que ainda cai sobre mim. Eu levanto do chuveiro após uns 20 minutos, desligo a água, me enrolo na toalha e deito na cama em meu quarto do jeito que estou. Jogo uma coberta por cima e choro enquanto espero meus pais chegarem para fingir que estou dormindo e não ter que explicar o que aconteceu com meu cabelo e com minha pele.
              Eu tenho 12 anos. Faz um mês que estudo nesse colégio, é válido salientar que eu odeio esse lugar. Meus pais dizem que é porque eu ainda não fiz amigos, logo me acostumo só preciso me esforçar para conhecer novas pessoas. Minha professora diz que é brincadeira, somos todos crianças. É minha culpa não querer não existir? não ser negra? é culpa minha não me amar? é culpa minha viver esse inferno? "...mas talvez se tivesse a pele mais clara...". Sete anos se passaram. Hoje, eu sou uma menina confiante, empoderada sim, com autoestima elevada, ninguém pode ou tem o direito de me colocar para baixo, eu luto para que outras crianças não ouçam o que eu ouvi, não vejam o que eu vi, não sofram o que eu sofri. Mas não foi fácil, eu ainda escuto coisas ruins, mas hoje eu tenho força o suficiente em mim para me impor. Quando eu tinha 12 anos eu não tinha. Quando eu tinha 12 anos eu não soube pedir ajuda, eu não soube procurar socorro, eu tive medo, até meus 12 anos e anos após aquilo eu chorei horas a fio após ouvir que ser preta era o meu problema. Eu ainda choro. Mas não porque ser preta é um problema. Choro porque conviver com seres humanos que fazem esse tipo de coisa e ensinam isso para os seus filhos é um problema. Mas eu sei que não estou sozinha, essa luta não é só minha.
Texto de: Stephanie Karoline
O projeto #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO surgiu para compartilhar textos, sentimentos e opiniões sobre assuntos que lhe incomodam ou já lhe incomodaram. Os textos podem ser enviados a partir do dia 1 de Maio de 2017 pelo formulário no fim do blog #VOCÊNÃOESTÁSOZINHO (vcnaoestassozinho.blogspot.com.br) e seu texto será divulgado para outras pessoas se identificarem a partir de Junho. Por enquanto, no mês de Maio, alguns blogs que apoiam a causa, postarão seus textos como forma de divulgação do projeto. 

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29 de abril de 2017

Uma carta estranha para um estranho // 12 cartas em 12 meses


Olá! 
Queria expressar minha santa indignação sobre essa última semana. Eu estive na bad o tempo todo e não é nem TPM, porque eu nunca tive essa coisa em 6 anos. Ou seja, algo pode estar acontecendo. Meu palpite é que eu me atarefei demais e não estou sabendo me organizar direito. Sabe o cansaço intelectual? Aquele que a gente acha que só os grandes estudiosos têm? Então, eu descobri que qualquer ser humano está a mercê disso e principalmente quando se está na faculdade. É horrível porque eu tento dormir e quando acordo estou de mal humor. Thank God.
Mudando de assunto, na última sexta-feira teve greve geral! Eu estive na manifestação de manhã e foi muito incrível. Nem sabia que tinha tanta gente com vontade de lutar. Me dei conta de muita coisa.
Enfim, a quarta carta do projeto 12 cartas em 12 meses.
  • Abril: Uma carta para um desconhecido.

Olá senhor,
Preciso confessar-lhe uma coisa. É muito esquisito que eu queira escrever uma carta para o médico que ajudou no meu nascimento. Eu não sei nem quando e porque isso começou, mas eu frequentemente penso nisso. Como seria encontrá-lo, doutor? Se é que você fez doutorado ou só se utiliza da intimidação social mesmo. Olha ai, você ajudou uma problematizadora a nascer. Duas na verdade, quase ao mesmo tempo.
Eu fico pensando se eu não te vi em algum lugar. Se você sentou ao meu lado na poltrona do cinema ou se estava na minha frente na fila do banco. É estranho pensar que quem me arrancou do útero da minha mãe para o mundo, esteja por aí vivendo sem saber quem eu sou. Claro que eu não fui a única a ser trazida à esse planeta azul pelas suas mãos, mas gostaria mesmo de te conhecer um dia. Acho até meio impossível, mas não consigo parar de pensar em como seria o encontro.
Às vezes fico imaginando quem você é, o que você faz além de tirar bebês de úteros. E espero que esteja vivo ou essa carta se tornaria extremamente mórbida. Será que você ainda é médico?
De qualquer forma, eu gosto de fantasiar sobre o seu passado. Na minha idade agora, 18 anos, o que você fazia da sua vida? Como você era? Será que já estudava medicina ou estava imerso na terrível angústia de não saber pra onde ir? Ou quem sabe, até hoje você não saiba pra onde ir... E a sua família, você tem uma? Ela se orgulha de você por ter conseguido um status de doutor? Você se orgulha de si mesmo? E as ideologias? E as paixões e aspirações? Será que você sabe quais suas motivações ou já perdeu essa reflexão em meio a correria da profissão? Espero que não, ou então você realmente está morto.
Eu tenho medo de um dia te encontrar e ficar decepcionada. Porque de algum jeito, eu me sinto muito próxima à você. Talvez eu veja na ideia que eu fiz do senhor, o meu futuro. Eu não quero ajudar pessoas a nascer como um médico faz, eu quero fazer as pessoas nascerem para a arte. O que é ridiculamente pretensioso, mas igualmente importante.
A extremamente curiosa e dramática menina que o senhor 
ajudou a vir à esse mundo que eu gostaria que fosse meu, 
Thainara Amorim.

23 de abril de 2017

(r)evolução.


A vida toda eu sempre me senti muito propícia a me metamorfosear. Não é difícil pra mim mudar de ideia, mudar de estilo, mudar de gostos... Basta apenas que conheça alguém ou algo que saiba me persuadir e lá estou eu, comprando aquela sandália que eu achava horrenda ou acreditando na ideologia que eu achava rasa. Você pode me chamar de influenciável. 

Eu me chamaria de evolucionável. 

E eu não sei se isso é uma coisa boa. Às vezes me ajuda, às vezes não. 
Esse blog nasceu assim. Eu achava que blogs eram infantis e que não acrescentariam nada nem à minha vida nem à vida das pessoas. Até um dia muito preguiçoso em 2014.
Há essa menina na internet que tem uma retórica deveras admirável (e pra acrescentar a voz dela ajuda muito), ela conseguiu me convencer em cinco minutos que eu precisava ter um blog. E assim que eu acabei de assisti-la, eu já tinha pensando em mil e um nomes para isso aqui. Foi então que eu criei um blog horroroso com a minha irmã. Nós não sabíamos nada de layout(até hoje não sabemos) e isso nos paralisou um pouco. Então ela desistiu e eu fiquei, e isso ficou, e você está nos lendo.

Toda essa delonga pra dizer que, enfim, mudamos o layout! 

Se você leu esse post que é nada mais nada menos que uma IMENSA crise existencial, você deve saber que o layout de antes não representava mais o SEMFM, e que eu não conseguia de jeito nenhum mudá-lo e isso não me deixava escrever sobre coisas que eu realmente queria escrever. Além disso, eu sempre achei que o blog deveria continuar como sempre esteve, que se eu mudasse o conteúdo vocês não o leriam mais.
Agora eu quero que o SEMFM seja assim como eu, evolucionável. Vamos descobrir se isso vai ser uma qualidade ou um defeito.

***

Quem me ajudou com essa lindeza de layout foi a Clarissa 
do Próxima Primavera que também está de roupinha nova!

19 de abril de 2017

Eu não sou sua cool girl!


Por muito tempo da minha vida, eu me perguntei por que todas as minhas amigas tinham namoradinhos ou paqueras e eu não. Sempre tentei não pensar nos motivos disso, porque me incomodava muito. Mas às vezes eu me perguntava o que tinha de errado comigo! Eu sou branca, tenho corpo padrão, meu cabelo se encaixa na categoria "ainda bem que é cacheado e não ruim!" (Categoria que podemos nomear "a mulata" dos cabelos). Meu corpo estava nas revistas, meu cabelo estava na TV! Mas por que os meninos se interessavam por todas as garotas à minha volta, menos eu?

E então a mídia me deu a resposta.

Sabe aquela menina com personalidade "masculina"? Uma menina que está dentro dos padrões de beleza, mas que pouco se esforça pra ser bonita ou não é tão vaidosa?  Aquela que faz piada escrachada, que fala palavrão? A liberal nos relacionamentos, que pega um monte e não fica com nenhum?  Aquela que é "da galera"?  E que geralmente quando varia um pouco - mostra aspectos considerados femininos (como tantas vezes aconteceu comigo) é fortemente questionada?

Ela era eu. Eu sempre estava nas rodinhas com os meninos, eu tinha facilidade de me relacionar com eles. Eles não tinham vergonha de falar nada na minha frente, desde a piadinha sobre pênis à ficada massa com a gostosa no sábado. Eu era a menina que não tinha frescuras, que não usava maquiagem, que não gostava de rosinha, que escutava "música de homem", que não lia livro de "mulherzinha", que via os filmes legais, que era "magra de ruim". Eu era um dos caras.
Ou melhor, eu era a "cool girl".

Então se algum deles se interessasse por mim, iria querer o tipo de "relacionamento liberal" que tanto sonhavam. Ou seja, usar a menina e depois dar o fora. Assim, eu não me apaixonava, eu não tinha permissão pra isso. Nem pra esperar que o cara ligasse pra mim no dia depois do primeiro encontro. Eu não podia consumir o que os caras não achassem legal e por Deus, eu não podia de forma nenhuma ser feminista! Eu estava lá para entretenimento deles e só.


O arquétipo da cool girl (garota legal em tradução literal) é bastante popular na Literatura. Geralmente é a menina que apresenta a maioria das características que introduzi acima e que despreza todas as mulheres com expressão mais feminina. Até mesmo essas novas personagens que estão surgindo, de personalidade forte e que são mostradas como guerreiras, atendem à certas características da cool girl. É algo que está tão por dentro das mídias contemporâneas que temos dificuldade de reconhecer, principalmente porque muitas vezes, essas "cool girls" são escritas por mulheres.
Na televisão e no cinema, esse arquétipo aparece de muitas maneiras. A Sam do iCarly é a típica cool girl. Não precisa nem de muita análise. Ela é praticamente um personagem masculino e quando se apaixona, todos ficam super surpresos! No seriado Sam & Cat o arquétipo é ainda mais visível, uma vez que há um contraste enorme entre a expressão de gênero totalmente masculinizada da Sam com a fofura e,  não por acaso,  burrice da roommate Cat. 
Em Gilmore Girls também somos capazes de enxergar esse trope. É muito perceptível no episódio em que a Lane Kim, amiga de uma das personagens principais, Rory Gilmore, vira líder de torcida e tem vergonha disso. Lane e Rory são inteligentes e “sem frescura", raramente estão dentro da expectativa feminina(como quando Rory aceita ser debutante em um baile, mas apenas pra agradar a vó -sqn) e sempre estão zoando as meninas que são diferentes, como a Madeline e a Louise.

A cool girl é um desserviço às mulheres e à luta feminista.
É um arquétipo machista que deslegitima as mulheres e as colocam em quadrados mais aceitáveis e menos aceitáveis. Além disso, perpetua a ideia de que há características próprias de homens e mulheres como se isso fosse natural e não construção social.
Humanos são humanos e têm características humanas.

Tudo bem gostar de livros de romance! Tudo bem usar rosa! Tudo bem gostar de maquiagem!
O que não está tudo bem é tornar a mulher um objeto de entretenimento. Ser diferente é legal, mas tentar ser diferente pra agradar homem é um investimento sem qualquer retorno.

11 de abril de 2017

18 antes dos 18!


Gente! Hoje eu faço 18 anos! 
Eu percebi há pouquíssimos minutos que o prazo do projeto 18 antes do 18 acabou hahaha Sério, parece que foi ontem que eu escrevi essas metas no meu celular...
****

  • 1.Autorrealização. Talvez isso seja um pouco impossível,mas vou sonhar mesmo assim. 
  • 3.Começar coisas que quero muito,mas que tenho um medo insano de fazer,seja por aceitação,ou qualquer outra coisa. 
  • 10.Parar de pensar incessantemente sobre oque as pessoas estão pensando de mim,porque fala sério(!),isso é um saco. 
  • 12.Parar de roer minhas unhas,e ter mais cuidado com todo o resto de mim,em geral. 
  • 17.Ter um amor épico,não importa de qual tipo seja.Se é que amor pode ser classificado em tipos. x
  • 18.Me aceitar completa e independentemente de tudo e sobre qualquer coisa e pessoa. 

A meta está em andamento, fico feliz porque ela é a mais difícil de se realizar. Tem gente que passa a vida toda sem esse negócio de autorrealização, porque eu deveria ter isso aos 18 anos? Eu tenho um monte de tempo pra me resolver ainda!
A10° e 18° metas foram um pouco difíceis, principalmente porque comecei essa lista aos 15 anos de idade. Mas até que vai indo bem. Ás vezes a gente tem aquela recaída, mas ninguém é 10/10, certo?
Quando pensei na 12° meta, eu achava que roer as unhas fosse só mais uma maniazinha minha. Hoje sei que há outras forças que agem e não posso me culpar por isso, tenho apenas que reconhecer o problema e buscar a solução. Muito difícil até o momento que escrevo, mas já consigo ver o progresso.
Não pude realizar a 17° meta. Não dependia só de mim. Tudo bem.

  • 4.Voltar a dançar. 
  • 5.Fazer mais do que me faz feliz!(Escrever,ler,gravar,dançar,editar,assistir,escutar música,ler ou assistir O Fantasma da Ópera...) 
  • 13.Ver pelo menos um musical em algum teatro legal.Resta sonhar ver O Fantasma da Ópera na Broadway :') x
  • 14.Assistir absolutamente todas as adaptações de filmes dos meus livros favoritos. 
No ano passado eu voltei com esse negócio de dançar e foi maravilhoso! É uma sensação que engrandece, sabe? Uma das melhores do mundo!!! Na foto acima estou eu e minha irmã vestida para o musical Mary Poppins que é dificílimo de performar, mas maravilhoso de assistir! A 13° meta foi meio impossível de fazer acontecer. Com 15 anos eu não entendia muito bem o preço de um espetáculo da magnitude de O Fantasma da Ópera hahaha Um dia eu consigo!
  • 2.Terminar de escrever um livro que importe tanto pra mim,que não vou achá-lo horrível e destruí-lo sem piedade assim que acabar. ...
Não sei se estou no caminho, é difícil dizer.


  • 6.Viajar para fora do país. 
  • 7.Fazer intercâmbio
  • 8.Ver neve. 
  • 9.Ser fluente em inglês
Yaaaay! Parte mais felizínea do post! Consegui as primeiras três metas e estou quaaase conseguindo a !!!!! Sair dos limites do meu quarto aos 16 anos foi uma experiência que mudou completamente minha forma de ver o mundo! Foi como se eu tivesse começado uma nova vida. Nunca imaginei que eu fosse voar pra a outra parte do continente acompanhada apenas da minha mala e das minhas inseguranças e encontrar amigos do mundo todo e de todas as idades. Eu me senti no Mito da Caverna de Platão, sério! haha é uma coisa meio nerd de se dizer, mas me lembro da minha última conversa com o meu professor de Filosofia antes da viagem e ele dizendo pra mim que depois que se via o mundo real não se podia voltar pra a escuridão da caverna e isso foi uma das poucas coisas que ele falou que fizeram sentido! Em setembro de 2015 ao pousar em terras canadenses, eu finalmente entendi que eu não era mais uma criança.


  • 11.Ter um bom término de ensino médio.  Desses de comédia do John Hughes se quer especificidade. x (Não foi dessa vez, mas até que foi legal)
  • 15.Me mudar pra a capital.Sonhos.Sempre eles. x (Esse sonho mudou completamente!)
  • 16.Começar a faculdade de cinema.  (Bem, não estou começando a faculdade de cinema propriamente, mas o curso de comunicação social tem habilitação em cinema e audiovisuais, so fair enough)
FINALMENTEEEE! Com 15 anos, o término do Ensino Médio e a entrada na faculdade era uma ideia que parecia tão, tão distante de mim! Mas eu consegui! 
Quando eu voltei pra o Brasil, eu estava com medo de entrar em depressão pós-intercâmbio ou ter problemas pra me readaptar, mas felizmente não foi o que aconteceu. Eu fiquei muitíssimo surpresa que a maior razão pra eu não entrar em tristeza profunda foi a escola! A escola! Eu NUNCA gostei da escola a minha vida inteira! Eu odiava acordar cedo, ter que fazer tarefa e trabalho,seguir uma rotina todos os dias e ter que usar um uniforme ridículo, mas então, no meu último ano eu gostei. Só por essa razão eu já achei 2016 o ano mais esquisito da vida! De qualquer forma, ano passado eu fiz muitos amigos, eu entrei de cabeça nas coisas da escola e me dediquei muito à História que é uma das maiores razões de eu não ter desistido da escola depois da quarta série. Sobre a faculdade, eu já enchi o saco de vocês de tanto falar!
Os itens que possuem um coração ao lado,são os que já foram concluídos(yaaay!).Os que tem uma estrela,são os que estão em andamento.Os que possuem um x vermelho,são os que foram anulados.
Hoje, 11 de abril, eu tenho legalmente o direito de comprar minha própria Ice no mercado do Shopping hahaha E eu sinto sim muita diferença, sabe. Meus amigos me disseram que seria a mesma coisa. E claro que nada além da minha idade mudou de ontem pra hoje. A mudança foi gradativa e silenciosa. Eu não mudei muito pra as pessoas que me conhecem, ao que me disseram. Mas eu me sinto outra pessoa. Voltei à essa lista que escrevi há 4 anos e não consigo parar de rir com essas metas. Meus sonhos mudaram, minha visão mudou, minha vida mudou. Com 18 anos, eu me sinto muito longe da menininha que criou esse blog.
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