23 de setembro de 2016

Um mútuo adeus

Estávamos lá. Ambas, eu e ela. Ela me olhou com aqueles olhos grandes, tão grandes como a Rússia. Ainda maiores, eu diria. Os olhos dela eram do tamanho da ambição imperialista estadunidense. Olhos que guardavam coisas que eu nunca havia imaginado. Coisas tão simples, mas que me fariam quebrar aos pedaços.
Eu devolvia o olhar, mesmo que excitada demais para pensar com sensatez. Meus olhos não engoliam ela, como aqueles imensos buracos negros faziam comigo. Eu apenas tentava alcança-la por mais na superfície que fosse. Queria que aquilo se tornasse conclusivo. Quase imutável. Mas não era.
Nos filmes que havia assistido até então, tudo era mais fácil. Amigas não brigavam por simples olhares. Amigas não guardavam ressentimentos por causa de um jeito de falar.
O plot era simples, como devia ser na nossa vida. Talvez as amigas gostassem do mesmo cara. Talvez uma das amigas tivesse traído a outra em um momento inconsequente. Nada do que havia na minha frente.
O que eu via era uma menina que eu acordei em amar. É assim que se faz, você sabe. Eu a amo, e ela retribui, e daí temos tudo que uma relação de amor mútuo nos oferece. Nada deveria acabar com isso, a não ser algo grande, como ela me trair ou eu gostar do namorado dela. Mas as coisas não funcionam assim. As coisas acabam terrível e simplesmente.
Passamos a nos estranhar em tão pouco tempo. Ah, que droga essas relações humanas! O que precisávamos mais? Tínhamos a mesma idade, os mesmos gostos, a mesma classe social! Éramos aliadas! Ela nunca me traíra ou fizera algo contra mim e nem eu contra ela. Havia um pacto, assim como aquele que fora assinado pelos donos do mundo em 1939. Mas nem eu e nem ela havíamos quebrado o acordo. E nem tínhamos a intenção. Por que ele insistia em voltar a nossa mente? Tentando nos dizer que o que tínhamos era errado?
Passei a me culpar, então. Odiava cada olhar audacioso dela. Odiava sua tenacidade e mais ainda a forma impassível como me tratava todas as vezes. Mas eu não deveria odiar nada disso. Quem eu era pra julgar as características alheias? Por Deus, não era dessa forma que eu a houvera conhecido?
Mas o problema, leitor, não era eu. Ou ela. Não havia sequer um problema.
As coisas são assim. Há tragédia e há beleza na amizade. Ou nos pactos de não-agressão.
Eu nunca precisaria invadir o território dela para confrontá-la. Mas eu já era completamente habilidosa para tal. Confrontá-la, digo. E ela não era e nunca será vilã por não ser a melhor em conviver comigo. 
Somos iguais. É isso. E por sermos iguais, queremos a mesma coisa. Essa coisa não pode ser dividida, ela pode ser compartilhada. 
Por isso, naquele dia, eu e ela selamos outro acordo. Um acordo silencioso. Este muito mais fácil do que o anterior.
Mandamos os exércitos para casa, a corrida acabou.

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